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Ibrahim Traoré endurece discurso sobre recursos de Burkina Faso: “Parceria, sim. Submissão, não”

Presidente de Burkina Faso defende relações de igualdade com investidores estrangeiros e reforça estratégia de maior controlo nacional sobre os recursos minerais do país



O Presidente de Burkina Faso, capitão Ibrahim Traoré, voltou a reforçar a posição do seu Governo sobre a participação estrangeira na exploração dos recursos naturais do país.

Segundo uma declaração divulgada recentemente, Traoré afirmou que investidores e parceiros estrangeiros são bem-vindos para cooperar com Burkina Faso, mas não serão aceites relações baseadas em domínio ou submissão. A mensagem foi resumida na expressão: “parceria, sim. Submissão, não”.

A declaração surge num momento em que Ouagadougou acelera uma política de maior controlo estatal e participação nacional no sector mineiro, especialmente na exploração do ouro.

“Ninguém será dono de Burkina Faso”

A posição atribuída a Traoré estabelece uma distinção entre cooperação internacional e dependência económica.

Na visão defendida pelo Governo burkinabè, empresas estrangeiras podem contribuir com capital, tecnologia, equipamentos e conhecimento técnico, mas a exploração dos recursos naturais deve ocorrer dentro de condições consideradas favoráveis aos interesses nacionais.

A mensagem divulgada nos últimos dias aponta para uma rejeição de modelos de relacionamento considerados desiguais, nos quais o país fornece matérias-primas enquanto a maior parte do valor económico da exploração permanece fora do território nacional.

A orientação está alinhada com declarações anteriores do próprio Traoré. Num discurso de final de ano, em dezembro de 2024, o Presidente afirmou que o Burkina Faso tinha retomado o controlo sobre os seus recursos naturais e defendeu que minerais como ouro, prata e cobre fossem explorados pelos próprios burkinabè.

Burkina Faso aumenta controlo sobre o sector mineiro

A mudança não se limita ao discurso político.

Nos últimos anos, o Governo de Ouagadougou implementou medidas destinadas a aumentar a participação do Estado e de investidores nacionais na indústria mineira.

O país adoptou um novo Código Mineiro e estabeleceu mecanismos que permitem ao Estado participar gratuitamente em determinadas operações mineiras, além de prever uma participação adicional mediante aquisição de participação no capital das empresas.

De acordo com o Governo, a legislação prevê uma participação gratuita de 15% do Estado, além da possibilidade de uma participação adicional de pelo menos 30% mediante pagamento.

O Governo também criou a Sociedade de Participação Mineira do Burkina Faso, SOPAMIB, como instrumento para deter, gerir e operar activos mineiros considerados estratégicos.

A estratégia já resultou na transferência de activos de mineração de ouro para o controlo estatal. Em 2025, o país concluiu a nacionalização de cinco activos relacionados com a exploração de ouro, incluindo duas minas em operação e três licenças de exploração.

Primeira mina de ouro industrial 100% estatal

A estratégia de soberania económica ganhou novo impulso em julho de 2026, quando o Governo anunciou a criação da Bouboulou S.A., apresentada pela Presidência do Faso como uma mina de ouro industrial com participação estatal de 100%.

A medida demonstra que a política de maior controlo sobre os recursos não está limitada à regulamentação de empresas estrangeiras. O Estado também procura assumir directamente a propriedade e a gestão de activos considerados estratégicos.

Em abril de 2026, o Governo deu outro passo semelhante fora do sector mineiro ao nacionalizar a SOFITEX, passando o Estado a deter 100% da empresa após a aquisição das participações anteriormente pertencentes a investidores privados.

Mais valor dos recursos deve permanecer no país

Outro elemento importante da estratégia é o processamento local.

Em janeiro de 2024, Traoré inaugurou em Ouagadougou uma unidade destinada ao tratamento de resíduos minerais. Segundo o Governo burkinabè, o projecto faz parte de uma estratégia para aumentar o processamento local e reduzir a dependência da exportação de recursos sem transformação.

A lógica económica é aumentar o valor acrescentado dentro do próprio Burkina Faso.

Em vez de limitar a actividade económica à extracção e exportação de matérias-primas, o Governo pretende desenvolver capacidade nacional para transformar os recursos, criar empregos, gerar competências técnicas e aumentar as receitas que permanecem na economia local.

Um modelo que ganha espaço no Sahel

A política de Traoré faz parte de uma tendência mais ampla de maior nacionalismo económico e controlo dos recursos naturais em partes do Sahel.

Burkina Faso, Mali e Níger têm defendido maior autonomia económica e política, ao mesmo tempo que procuram reduzir determinadas formas de dependência externa.

No caso burkinabè, o sector do ouro ocupa uma posição particularmente estratégica. O país é um dos principais produtores africanos e a mineração representa uma fonte importante de receitas e exportações.

Uma análise académica publicada em 2025 identificou precisamente a política de Traoré como uma tentativa de reforçar a soberania permanente sobre os recursos naturais, embora também destaque desafios relacionados com instituições, contratos de investimento, transparência e capacidade de implementação.

Soberania significa automaticamente prosperidade?

É aqui que surge o principal desafio para Burkina Faso.

Assumir maior controlo sobre os recursos naturais não garante, por si só, que a população ficará mais rica.

Para que a estratégia produza resultados concretos, será necessário transformar a maior participação estatal em investimento produtivo, empregos, industrialização, infraestruturas, educação e melhoria das condições de vida.

Também será fundamental garantir transparência na gestão das receitas provenientes da mineração, eficiência das empresas estatais e segurança jurídica para os investimentos que continuarem a ser realizados no país.

A própria evolução da indústria mineira mostra que a questão é mais complexa do que simplesmente substituir empresas estrangeiras por empresas nacionais. É necessário garantir capacidade técnica, financiamento, gestão eficiente e mecanismos que impeçam que os benefícios da nacionalização fiquem concentrados em poucos grupos.

“Parceria em igualdade ou exploração?”

A mensagem de Ibrahim Traoré coloca novamente no centro do debate africano uma questão que ultrapassa as fronteiras de Burkina Faso.

Durante décadas, muitos países africanos foram importantes fornecedores de petróleo, ouro, cobre, cobalto, diamantes e outros recursos para os mercados internacionais, enquanto grande parte da transformação industrial e do valor acrescentado ocorria fora do continente.

A estratégia defendida por Ouagadougou procura inverter parcialmente essa lógica, aumentando a participação nacional na propriedade, exploração e transformação dos recursos.

A questão agora é saber se Burkina Faso conseguirá transformar essa política de soberania económica em resultados concretos para a população.

Parceria internacional em condições de igualdade ou manutenção dos antigos modelos de exploração?

Essa é uma das principais questões que a nova política económica de Ouagadougou coloca para Burkina Faso e para o futuro da exploração dos recursos naturais em África.

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