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Ébola na RDC ultrapassa 9.000 casos e 4.381 mortes; surto preocupa África

A epidemia provocada pela variante Bundibugyo continua a avançar na República Democrática do Congo. As autoridades enfrentam dificuldades para travar a transmissão, enquanto mais de 1.900 crianças ficaram órfãs ou separadas dos seus cuidadores.

Profissionais de saúde na resposta ao surto de Ébola provocado pela variante Bundibugyo na RDC.

A epidemia de Ébola na República Democrática do Congo (RDC) ultrapassou uma nova marca preocupante. O país registou 9.066 casos confirmados e 4.381 mortes, segundo o mais recente balanço do instituto nacional de saúde pública, divulgado a 13 de outubro de 2026.

O surto, provocado pelo vírus Bundibugyo, foi declarado em maio e tornou-se o maior e mais mortal surto de Ébola alguma vez registado na história da RDC, ultrapassando a epidemia de 2018 a 2020.

Por detrás dos números estão comunidades inteiras a tentar proteger-se de uma doença grave, profissionais de saúde a trabalhar sob pressão e famílias que perderam os seus entes queridos. A resposta também enfrenta dificuldades de acesso a algumas localidades, falta de recursos e resistência de parte da população às medidas de controlo.

A situação deixou de ser uma preocupação exclusivamente congolesa. O Quénia confirmou recentemente um caso importado associado à epidemia, elevando a atenção das autoridades sanitárias da região para o risco de propagação internacional. <Cite refs={["turn427199news23","turn427199search0","turn427199news24"]}/>

Números do surto: mais de 9.000 casos confirmados

Os dados divulgados a 13 de outubro mostram a dimensão que a epidemia atingiu em poucos meses.

O balanço das autoridades congolesas contabiliza 9.066 casos confirmados e 4.381 mortes. A taxa bruta de letalidade, calculada pela proporção de mortes entre os casos confirmados, situa-se perto de 48,3%.

Este indicador não significa que todas as pessoas infetadas tenham o mesmo risco de morrer. A evolução clínica depende de vários fatores, incluindo o estado de saúde do doente, o momento em que recebe assistência e a capacidade de acesso aos cuidados médicos.

O surto já ultrapassou, em dimensão, a epidemia de Ébola de 2018 a 2020 na RDC, que provocou mais de 3.400 casos e mais de 2.200 mortes.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) tem alertado para a continuidade da transmissão e para as dificuldades de resposta em várias zonas afetadas. A identificação precoce dos casos, o acompanhamento dos contactos e o isolamento adequado continuam a ser fundamentais para reduzir a propagação. <Cite refs={["turn427199news23","turn427199search0"]}/>

Variante Bundibugyo: por que razão preocupa os especialistas?

O atual surto é causado pelo vírus Bundibugyo, uma das espécies de vírus responsáveis pela doença do Ébola.

A infeção pode provocar febre, fraqueza intensa, dores musculares, dores de cabeça e de garganta. Em alguns doentes, surgem posteriormente vómitos, diarreia, dores abdominais e, em casos graves, hemorragias e falência de órgãos.

Os primeiros sintomas podem ser semelhantes aos de outras doenças comuns na região, incluindo a malária. Por isso, a confirmação exige avaliação clínica e testes laboratoriais apropriados.

Um dos desafios deste surto é a ausência de vacinas e tratamentos específicos aprovados para a doença causada pelo vírus Bundibugyo. Isto não significa que os doentes não possam receber assistência. Os cuidados de suporte, a hidratação, a monitorização clínica e o tratamento das complicações são essenciais para melhorar as hipóteses de sobrevivência.

A OMS continua a recomendar uma resposta coordenada, com deteção rápida de casos, isolamento, cuidados clínicos, acompanhamento dos contactos e envolvimento das comunidades. <Cite refs={["turn427199search0","turn427199news1"]}/>

Ituri e Kivu do Norte entre as regiões mais afetadas

A transmissão continua concentrada sobretudo no leste e nordeste da República Democrática do Congo.

A província de Ituri permanece como o principal foco da epidemia, enquanto Kivu do Norte tem registado um aumento preocupante de casos. A insegurança e as dificuldades de acesso a algumas localidades tornam mais complicada a chegada das equipas de saúde.

Segundo a OMS, a epidemia já atingiu dezenas de zonas sanitárias em sete províncias. A circulação de pessoas, os deslocamentos provocados pelo conflito e a dificuldade em identificar todos os contactos de pessoas infetadas aumentam a complexidade da resposta.

As equipas precisam de localizar pessoas que estiveram em contacto com doentes, acompanhar o seu estado de saúde e encaminhá-las rapidamente para avaliação quando surgem sintomas.

No entanto, nem todos os casos são identificados a tempo. A Organização Mundial da Saúde tem alertado que uma parte significativa das mortes ocorre fora das unidades de tratamento, situação que dificulta a investigação epidemiológica e aumenta o risco de transmissão nas comunidades. <Cite refs={["turn427199search0","turn427199news24"]}/>

Quénia confirma caso importado e aumenta vigilância regional

A preocupação com a propagação internacional aumentou depois de o Quénia confirmar um caso de doença causada pelo vírus Bundibugyo numa pessoa que tinha viajado a partir da República Democrática do Congo, passando pelo Uganda.

Segundo a OMS, o doente foi hospitalizado e recebeu assistência no Quénia, mas morreu a 5 de outubro. As autoridades sanitárias iniciaram medidas de resposta, incluindo o rastreio de contactos.

O caso demonstrou que a mobilidade entre países pode levar a infeção para além das zonas onde a transmissão está estabelecida. Contudo, a confirmação de um caso importado não significa, por si só, que exista transmissão comunitária sustentada no país que o recebeu.

O Uganda, que também tinha registado casos durante este surto, foi declarado livre da doença em agosto, segundo as informações divulgadas pelas autoridades sanitárias internacionais.

A OMS recomenda que os países reforcem a vigilância e a capacidade de resposta, mas, com base na avaliação publicada a 8 de outubro, não aconselhava restrições gerais de viagens ou de comércio com os países afetados. <Cite refs={["turn427199search0","turn427199news23"]}/>

Mais de 1.900 crianças ficaram órfãs ou separadas das famílias

O impacto da epidemia vai muito além dos hospitais e dos números apresentados nos relatórios.

A UNICEF informou, a 6 de outubro, que mais de 1.900 crianças tinham perdido um ou ambos os progenitores, ou ficado separadas dos seus cuidadores, devido ao surto na região oriental da RDC.

Deste total, 1.581 crianças foram identificadas em Ituri e outras 322 em Kivu do Norte, segundo os dados recolhidos até 28 de setembro nas áreas abrangidas pelo trabalho da organização e dos serviços sociais locais.

A UNICEF alertou que o número real poderá ser superior, uma vez que os dados não abrangem necessariamente todas as comunidades afetadas.

Para uma criança, a perda de um cuidador pode significar ficar sem alimentação regular, abrigo, acompanhamento escolar e apoio emocional num momento particularmente difícil. Algumas crianças também precisam de assistência especializada quando existe suspeita de exposição ao vírus.

A organização está a trabalhar com as autoridades e os serviços sociais para identificar crianças vulneráveis, prestar apoio psicossocial e encontrar soluções seguras de acolhimento. <Cite refs={["turn427199search21"]}/>

Falta de profissionais e dificuldades logísticas complicam a resposta

O combate à epidemia exige equipas treinadas, equipamentos de proteção, laboratórios funcionais, instalações de isolamento e meios de transporte para chegar às comunidades afetadas.

Em setembro, a OMS alertou para a necessidade de reforçar os recursos humanos dedicados à resposta. A falta de profissionais, as dificuldades de financiamento e a limitação dos parceiros operacionais estavam a atrasar a expansão de algumas atividades.

A organização indicou a necessidade de milhares de profissionais adicionais para apoiar o combate ao surto.

A situação é agravada pela insegurança em algumas zonas do leste congolês, onde a violência e os deslocamentos populacionais dificultam a prestação de serviços de saúde. Quando as equipas não conseguem chegar rapidamente às comunidades, os casos podem permanecer por identificar e os contactos deixam de ser acompanhados de forma adequada.

A resposta também depende da confiança da população. A desinformação e o receio de procurar assistência podem atrasar o diagnóstico e aumentar a exposição de familiares e profissionais de saúde.

Por isso, as organizações de saúde defendem que o trabalho médico deve ser acompanhado por comunicação clara, respeito pelas comunidades e participação de líderes locais. <Cite refs={["turn427199news8","turn427199news10","turn427199news24"]}/>

Como se transmite o Ébola e como reduzir o risco?

O vírus Ébola transmite-se sobretudo através do contacto direto com sangue e outros fluidos corporais de pessoas infetadas que apresentam sintomas, ou com materiais contaminados. O risco também pode existir durante a preparação de funerais quando há contacto desprotegido com o corpo de uma pessoa que morreu devido à doença.

A transmissão não ocorre simplesmente por uma pessoa estar no mesmo país ou na mesma cidade que alguém infetado. É importante compreender as formas reais de contágio para evitar o pânico e a discriminação.

As principais medidas de prevenção incluem:

  1. Evitar o contacto direto com pessoas que apresentem sintomas suspeitos até receberem avaliação médica.

  2. Procurar assistência de saúde rapidamente em caso de sintomas e possível exposição.

  3. Não tocar em sangue, fluidos corporais ou materiais potencialmente contaminados sem proteção adequada.

  4. Cumprir as orientações das autoridades sanitárias sobre isolamento, acompanhamento de contactos e funerais seguros.

  5. Consultar informações oficiais em vez de partilhar rumores ou mensagens não verificadas.

Febre e dores no corpo não significam automaticamente que uma pessoa tenha Ébola. A avaliação médica é essencial, especialmente em zonas afetadas ou após contacto conhecido com um caso.

Qual é o risco para os restantes países africanos?

A expansão do surto exige vigilância, sobretudo nos países que partilham fronteiras com a RDC e nos que mantêm ligações frequentes de transporte e comércio.

Na avaliação publicada pela OMS em agosto, o risco foi considerado muito elevado dentro da RDC e elevado para os países que partilham fronteiras terrestres com o país. Para o restante continente africano e para o nível global, a avaliação então publicada era de risco baixo.

A confirmação de um caso importado no Quénia levou a novas medidas de vigilância e a uma avaliação específica da situação nesse país.

Estas classificações são avaliações de saúde pública e podem mudar à medida que surgem novos dados. Não significam que todos os países africanos estejam perante o mesmo nível de ameaça.

Para Angola e os restantes países da região, a prioridade é acompanhar os comunicados das autoridades sanitárias, manter a vigilância epidemiológica e assegurar que os profissionais estão preparados para reconhecer casos suspeitos e encaminhá-los adequadamente.

A OMS não recomendou restrições gerais de viagens ou comércio com os países afetados na sua atualização de 8 de outubro. As decisões devem continuar a basear-se na avaliação técnica e nas orientações oficiais mais recentes. <Cite refs={["turn427199search0","turn427199search17"]}/>

O que esperar nos próximos dias?

O controlo da epidemia dependerá da capacidade de encontrar novos casos rapidamente, acompanhar contactos e garantir que as pessoas infetadas recebem assistência adequada.

Será igualmente importante reforçar a proteção das crianças afetadas, apoiar famílias vulneráveis e melhorar as condições de trabalho dos profissionais que atuam nas zonas de maior transmissão.

A evolução dos números não deve ser analisada isoladamente. O aumento dos casos confirmados pode refletir transmissão persistente, mas também melhorias na identificação e testagem. Da mesma forma, uma redução temporária dos registos não garante que a epidemia esteja controlada.

Os próximos balanços da OMS, do Ministério da Saúde da RDC e das organizações que trabalham no terreno serão essenciais para perceber se a transmissão está a diminuir e se os recursos disponíveis correspondem às necessidades das comunidades.

Conclusão

O surto de Ébola provocado pela variante Bundibugyo ultrapassou os 9.000 casos confirmados na República Democrática do Congo e já provocou mais de 4.300 mortes, segundo o balanço divulgado a 13 de outubro.

A epidemia continua a pressionar os serviços de saúde, afeta famílias inteiras e deixa milhares de crianças numa situação de vulnerabilidade. A confirmação de um caso importado no Quénia reforça a importância da vigilância e da cooperação entre os países da região.

A ausência de vacinas e tratamentos específicos aprovados para esta variante torna ainda mais importante a deteção precoce, a assistência clínica e o envolvimento das comunidades.

O desafio imediato é travar a transmissão sem deixar para trás as pessoas que precisam de cuidados, proteção e apoio. A evolução do surto dependerá não apenas dos recursos médicos, mas também da capacidade de chegar às comunidades, conquistar a sua confiança e responder rapidamente às necessidades no terreno.


Fontes: Organização Mundial da Saúde (OMS), Reuters, Centros de Controlo e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC), Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças (ECDC) e UNICEF. Dados atualizados com base nas informações disponíveis até 13 de outubro de 2026.

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